segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Lula, destruidor criativo da política

UM DOS MAIS CORTANTES pensadores da economia e da política, o austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) elaborou conceitos que se tornaram pilares para qualquer analista que tente entender as modernas sociedades democráticas capitalistas. Concorde-se ou não com ele. Sua definição do capitalismo como um sistema de produção cujo segredo do sucesso está na constante mutação, por meio de um processo de “destruição criativa”, é um clássico. Como uma cobra que vai trocando de pele, o capitalismo se reinventa. Novas técnicas de produção e novos produtos substituem antigos modelos e se sucedem no tempo, fazendo com que o essencial, a busca pelo lucro, não se altere. Para Schumpeter, o principal responsável por esse processo de destruição e reinvenção é o empresário inovador, uma figura arquetípica, comparável a um guerreiro medieval. Repousa sobre ele a liderança e as possibilidades de conquistas no mundo capitalista. O empresário inovador não pertence necessariamente ao topo da pirâmide social. Diferentemente dos guerreiros, que vinham da nobreza, ele pode emergir de qualquer classe, da mais rica à mais pobre. Mas, invariavelmente, é um indivíduo que reúne qualidades especiais, que o fazem destacar-se como um criador no meio econômico e como força-motriz do sistema capitalista.

No âmbito dos regimes democráticos, a figura mais semelhante ao do empresário schumpeteriano é a do empresário político. Este tipo foi utilizado por Max Weber (1864-1920) para caracterizar algumas das principais diferenças entre as democracias europeias e a norte-americana. Enquanto na Europa os partidos eram comandados por burocracias, digamos, insossas, pelo domínio de grupo de políticos profissionais sem vocação, nos Estados Unidos reinava, no melhor espírito do capitalismo, o empreendedorismo individual dos políticos que montavam sua própria máquina partidária em busca de votos.

Para Weber, que escrevia no começo do século 20, só haveria, então, duas escolhas de democracia: a democracia com liderança (americana) e a democracia sem líder (europeia).

A história política brasileira recente, no entanto, é mais original.

Permite uma terceira via, híbrida, mestiça. É o país onde há o petismo, oriundo de um partido socialdemocrata de massa, ao velho estilo das organizações europeias.

E onde há o lulismo, movido pelo carisma, pela trajetória e pela força pessoal do presidente da República.

Essa mistura, em que se combinam traços de partidarismo e personalismo, é uma das marcas do sistema político brasileiro. O petismo não responde por todo o quadro político, mas sua trajetória serviu de exemplo para outras legendas ao mostrar quão longe pode ir uma agremiação que investe em sua marca partidária. Seu percurso é europeu. Já Lula não corresponde exatamente ao perfil do empresário político americano a que se referia Weber. O PT não foi uma máquina partidária, uma criação personalista sua, pois, como se sabe, o partido surgiu da união de sindicalistas, segmentos da Igreja e da intelectualidade.

Mas, com a força atual de sua popularidade – e mesmo antes dela – não há como negar que seu comando sobre o partido em alguns momentos se assemelha ao de um empreendedor e dono da empresa.

A condução das negociações sobre sua sucessão eleitoral revela bem isso. O anúncio na semana passada da aliança do PT com o PMDB, para a formação da chapa presidencial em 2010, mostrou como a preocupação com os compromissos partidários é importante – mesmo na arena eleitoral, onde o personalismo é tido como endêmico. Às pressas, PT e PMDB buscaram um pré-acordo nacional, antes que os líderes estaduais fizessem suas alianças por conta própria. Mas a escolha do nome para sucedê-lo, ainda que não tenha havido convenção partidária, já é sabida por todos: Dilma Rousseff, uma decisão pessoal de Lula.

Dilma, ainda desconhecida do grande eleitorado, não figura bem nas pesquisas eleitorais. Mas é na intuição de Lula – na impossibilidade de ele próprio competir – que o partido deposita suas esperanças de continuar no poder. Afinal, Lula é o exemplo mais bem acabado do empresário schumpeteriano da política brasileira, com sua capacidade ímpar de fazer “destruições criativas”. Ainda que a aparência seja apenas de pragmatismo (continua amanhã).

Seu comando se assemelha ao de um empreendedor e dono da empresa


fonte: JB online

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